Você já deve ter lido o nosso texto sobre como escrever um ótimo laudo neuropsicológico. Agora que você aprendeu o que deve fazer, que tal agora aprender o que não fazer?

Neuropsicólogos emitem laudos. Fazem relatórios. Encaminham pacientes com laudos para profissionais de saúde, para a escola, para o trabalho. Um dos maiores desafios na emissão de um laudo ou relatório é escrevê-lo de forma a oferecer o máximo de informação necessária. Isso é importante: NECESSÁRIA!

Então resolvi dar essa dica às avessas. Tome esses cinco cuidados pois depois o caos, aquela sensação excelente de que algo ruim foi realizado e o efeito virá em breve! Kabum! É hora de rever seu laudo para escrever. Faça isso que o desastre é garantido! BUHAHAHA

1. Escreva no estilo PATROPI. O famoso personagem cômico da escolinha do professor Raimundo pode misteriosamente encarnar em você na hora de escrever isso no laudo. Uma de suas expressões famosas “é pá daqui, é pá dali”, pode aparecer na redundância no laudo. Isso é completamente desnecessário. Atenção: Repetições também são desnecessárias. Então fica a dica: escreva o texto de qualquer jeito, tenho certeza que você irá acertar tudo de primeira!! ​

Escrever com fluidez é essencial, mas revise o seu texto.

2. Escreva um LIVRO. É superespecial escrever um livro! Além disso, plante uma árvore e tenha um filho, mas cuidado para que o seu laudo não se transforme em um livro. Laudo bom é aquele laudo bíblico, da página 1 a 50. Informação nunca é demais.

(O laudo deve conter informação suficiente para que uma pessoa leiga possa estar apta a compreender a principal ideia, conclusões e recomendações (Axelrod, 2000). Uma expressão americana que gosto muito é “too much information”. Isso é aversivo ao paciente  e raramente atrairá a atenção do mesmo e do profissional de referência.  A não ser que você seja a J.K.Rowling  e esteja escrevendo um novo episódio do Harry Potter, esqueça isso. Seu livro pode ser tornar um fracasso.)

3. Esqueça a QUEIXA PRINCIPAL. Esqueça de relatar o início, severidade, duração e presença das queixas, afinal de contas o(a) paciente poderia estar ali para relatar o último jogo do Brasileirão, e isso é super relevante para o seu laudo! Tenho certeza que o médico que estiver lendo isso depois vai adorar que o América Mineiro perdeu de 4 a 1 para o time do Zé do picolé no campeonato da série C.

(A impressão diagnóstica ou sua preocupação em ajudar o(a) paciente e sua família são genuínas. Elas realmente são relevantes ao final do seu relatório, mas a pergunta inicial é: por que o(a) paciente e sua família estão aí em sua sala? A queixa principal pode inclusive ser diferente daquela apresentada pelo profissional de referência. Às vezes o paciente apresenta mais de uma queixa principal. Por exemplo, um paciente idoso pode  relatar problema  de memória e sua família refere problemas executivos. )

4. Confunda o DOMÍNIO DOS TESTES. Tenho certeza que o teste dos cinco dígitos avalia inteligência fluida porque eu vi um paciente muito inteligente fazer ele bem. A Figura de Rey também é um ótimo teste para se avaliar todos os domínios da memória. Vai por mim.

(Testes neuropsicológicos são avaliados em seus construtos, i.e., em outras palavras, a que funções eles são dirigidos. Eu já li laudos no qual estava descrito o resultado de um teste de memória declarativa verbal de longo prazo e com interpretação de problema em memória de trabalho. Cuidado com isso. Se você tem dúvidas, estude o manual do teste, consulte um amigo ou em último caso, se quiser escrever um laudo parecido com uma sopa de letrinhas, uma cartomante. Você confirmará sua tendência a escrever PÉSSIMOS laudos. )

5. Confie totalmente no seu FEELING! Todos nós sabemos que a primeira impressão é a que vale. Se a criança tem cara ter TDAH então é por que ela tem, é óbvio!

Uma forma garantida de escrever um laudo redondamente enganado é descartar exames médicos, relatos da escola, avaliações neuropsicológicas anteriores ou ainda exames de imagem. É claro que sua impressão conta, mas lembre-se que isso agora está por escrito. Quem lê seu laudo não está lhe vendo, nem você tem memória, ACREDITE, para lembrar todas as informações sobre o(a) paciente que você avaliou há um ano. Então relate. Crie uma estratégia para relatar os principais exames em seu laudo que contribuíram para que você chegasse à sua impressão diagnóstica. A não ser que você seja um telepata e possa ler mentes.

Estão aí algumas dicas para escrever um PÉSSIMO laudo neuropsicológico. Dicas como essas são importantes, pois muitas vezes cometemos erros sem sequer perceber. Criamos o curso totalmente online da Formação Continuada em Neuropsicologia justamente pensando nestas questões práticas da clínica. Os professores Leandro Malloy-Diniz, Paulo Mattos, Rochele Fonseca e eu, falamos sobre isso e muitos outros temas referentes a neuropsicológica na prática por lá! Dá uma conferida!

Um grande abraço e até lá!

Neander Abreu

Professor da Formação Continuada em Neuropsicologia