Neuropsicologia é uma área interdisciplinar. Não acredita? Segundo a Lezak, autora do famoso tratado “Neuropsychological Assessment”, a neuropsicologia é interdisciplinar e ela é a área que estuda a expressão comportamental (cognitiva, afetiva, comportamental) da lesão ou disfunção cerebral. Com o avanço que temos hoje em áreas como tomada de decisão, economia, desenvolvimento e aprendizagem, podemos arriscar a dizer que ela é bem mais do que isso.

Em 2012 um grupo de pesquisadores e clínicos brasileiros da área da neuropsicologia, dentre os quais os quatro professores e clínicos desta formação, resolveram fazer uma contribuição. Houve uma reunião na cidade de São Paulo num encontro memorável para dizer que esta área era interdisciplinar e, capitaneados pelo professor Vitor Haase, publicaram um artigo na revista da Sociedade Latinoamericana de Neuropsicologia (SLAN, Vol 4. No. 4. 2012, 1-8).  Isso está expresso mais em prosa do que em verso, mas seguindo os parâmetros científicos de publicação, foram expressas as opiniões e evidências da ciência sobre o fato. É uma área aberta para todos os que desejam se aprofundar querem contribuir para o estudo da relação cérebro e cognição e comportamento, seja pela experiência clínica ou pela pesquisa.

Esta não é uma discussão ou assuntos novos. Há várias evidências desde a pesquisa básica com animais a pesquisas de alta complexidade com neuroimagem ou recentemente com fatores que podem proteger contra demência, como no artigo que o Paulo Mattos contribuiu publicado pelo grupo da UFRJ no qual se verificou que  a irisina, hormônio conhecido liberado pelos músculos através de prática regular de exercícios também é liberado pelo cérebro e pode estar na chave de prevenção do Alzheimer. Este é um grande passo para o avanço da ciência na área. Afinal, Neuropsicologia serve para a gente ter uma vida melhor, e temos de nos manter atualizados mesmo com pesquisas experimentais.

Há de se destacar, entretanto, que nem sempre a conversa é mansa. Por exemplo, num artigo, no qual cito na minha coluna (conheça ela aqui), publicado em 2007 pela Bárbara Wilson, a discussão sobre os limites da neuropsicologia cognitiva, que trabalha com modelos para neuropsicologia clínica, foi colocada em perspectiva. Para a autora, há limites claros da contribuição efetiva da neuropsicologia cognitiva, porque haveria fatores outros que influenciariam o desempenho e principalmente a reabilitação neuropsicológica, envolvendo tanto aqueles tópicos essenciais como o desempenho neuropsicológico do paciente em si, como fatores familiares, contextuais, de nível social e educacional e outros que podem ao final estender a dimensão clínica superando os limites naturais do conhecimento teórico. Em outras palavras: muitas vezes, sem perceber, superestimamos algumas facetas da nossa atuação.

Penso nisso a partir de um nível relacional, da busca do equilíbrio na balança. Veja só: se você repousar somente sobre a cama do conhecimento teórico e não meter a mão na massa estará fazendo o 7×1 da copa na sua formação em neuropsicologia. E se você fizer isso, está no time do Brasil.  Descansar somente sobre o fator experiência clínica pode fazer você ficar parecido com o Patropi da neuropsicologia.

 

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Ó Neander Abreu, dá para você ser mais direto? Bom, vão aqui algumas dicas que considero úteis para sua prática em neuropsicologia para manter uma relação que até divirja eventualmente, mas que chegue a um acordo bem profícuo:

  1. Avalie as novidades da área. Todos os anos estão surgindo novidades em neuropsicologia: novos testes, novos livros, novos cursos. Estude e dedique tempo para se atualizar. Parece óbvio, mas quando um professor da Formação Continuada em Neuropsicologia citar e disponibilizar um texto novo, leia. Ou de qualquer outra fonte que valha a pena! Acredite nisso, funciona! Inclusive o próprio Leandro Malloy fala isso em sua coluna no nosso curso online. 
  2. Leia um artigo por mês. Parece pouco, não é? Quantos artigos você leu no último mês? Um por mês são doze ao ano. Não vale aquele das redes sociais sobre o horóscopo de hoje. Estamos falando de artigos/textos que contribuam para a prática. Um bom exemplo? Um artigo legal que fale sobre como pacientes com DFT foram piores do que com Doença de Alzheimer numa tarefa de nomeação. Isso pode ser uma ótima dica para sua prática clínica. P.s. veja a descrição abaixo sobre evidências.
  3. Discuta com seus colegas de profissão. Leve um estudo de caso para uma roda em um congresso. Apresente um pôster no evento de neuropsicologia.  Até pelo WhatsApp (esta foi dura, mas nossos grupos dos alunos do curso são super agitados). Com o tempo você vai ver como ajuda, inclusive aos mais experientes. Compartilhe sua experiência clínica.  Você já assistiu uma DR dos quatro professores da formação sobre algum caso clínico? A gente pensa diferente alguns resultados. É a experiência quem produz isso. Ela nos dá uma percepção. É a dúvida e busca da evidência que nos ajuda a um consenso.
  4. Veja o grau de evidência da informação. Algumas pessoas desprezam estudos de caso. É um erro, ele tem nível de evidência C e está acima da opinião de um especialista. Por outro lado, uma revisão sistemática pode ter nível B ou A (depende do tipo) e ela pode conter muita informação importante. Então junte tudo isso e veja algo como “realmente, pacientes que têm TDAH nem sempre terão problemas de atenção focalizada”. Nesta página web tem uma dica dos níveis de evidência de estudos http://portal2.saude.gov.br/rebrats/visao/estudo/recomendacao.pdf
  5. Use a sua sensibilidade clínica. No livro Neuropsicologia: Aplicações clínicas há a maravilhosa descrição de um quadro clínico chamado “A mulher que morava debaixo do boné” feita pelo Leandro Malloy e grupo. É uma paciente que precisava de avaliação rápida em função de um quadro de lesão expansiva em lobos frontas. Se fosse realizada uma avaliação neuropsicológica extensa e pormenorizada haveria certamente risco e impossibilidade de fazê-lo. O exame do estado mental e de observações realizadas indicou os prejuízos presentes e auxiliou o diagnóstico utilizando a observação e perspicácia do avaliador. Sensibilidade clínica é tão boa quanto o seu feeling para furadas. Utilize-a!
  6. Dê um “match” para o conhecimento. Talvez seja a Jennifer da neuropsicologia para você. Por exemplo, você pode ter um paciente com nível elevado de escolaridade e suspeita de Transtorno Neurocognitivo Leve. Você acabou de ler no manual do Mini-Mental II que há recurso melhores para avaliar pacientes com este perfil e que é hora de usar uma versão estendida oferecida pelo teste. Ponto para você. O seu aplicativo de paquera da neuropsicologia deu certo!!!

Tenho aprendido que quero saber mais do que os meus vinte e poucos anos de neuropsicologia. Para isso é preciso continuar fazendo o elo do conhecimento da neuropsicologia cognitiva e da experiência clínica. Isso dá um casamento real. Tente fazer o seu!

 

Com um abraço

Neander Abreu